Máximo Zandonadi
 


Cor Contritum

 

Depois do terço à noite, havia uma breve oração da noite. A gente recitava o “De Profundis” e o “Miserére mei Deus” – em latim, todo ele decorado, mas todo ele mastigado e sem compreender nada daquilo.

Um parente meu, meio pândego, uma vez me disse que não gostava do Miserére, porque havia um trechinho, um versículo, no meio do salmo que falava de couro curtido e, “couro curtido fede muito e não gosto nem que falem de couro curtido”.

Mas como? Perguntei eu. E ele:

- “Não está lá no versículo: Cor contritum el humiliatum, Deus non despicies. Cuja tradução correta é: couro curtido e molhado, nem Deus espicha”?

- “Nada disso, que não faz sentido num salmo de penitência. O que Davi disse se refere à misericórdia de Deus que: não despreza um coração arrependido e que se humilha”.

 

Conto nº 66, página 91 do livro “Reminiscências de um Século (1889-1989)” do Sr. Máximo Zandonadi. Publicado em 1989.


A cabecinha Branca e a calvície do Padre Olívio

 

         Aconteceu na estrada de terra, construída pela comunidade para encurtar a viagem pra Castelo. O diretor do Colégio Salesiano de Jaciguá – Padre Olívio Jordano, tinha mandado pelo correio um aviso:

            - “Vou a Venda Nova passar uns dias. Alguém da comissão da Capela de Venda Nova poderia buscar-me em Castelo? Sigo de trem”.

            Desceu o papai, no caminhão do Otávio Perim.

            Na volta, num lugar não muito longe de Pindobas, o carro atola num lodaçal e pára. O dono do carro, Otávio Perim saiu do volante e com a enxada começa a tirar o barro dos pneus. Padre Olívio que também viajava na boléia, desceu e na escuridão da noite encontrou um lugar enxuto pra ficar em pé, perto da carroceria. Da estatura mediana, sua cabecinha branca e meio calva, sobressai além da altura da carroceria. Papai, em cima da carroceria, distraído e no meio do escuro, não viu o Padre Olívio sair da boléia do carro e nem tinha reparado quem estava por ali quase encostado. Tinha acabado de esvaziar o cachimbo e aproveitou o compasso de espera para reabastecê-lo. Sempre é costume, tirar a cinza antes de reequipá-lo. Ao lado da carroceria, “aquele toco branco” (Deus me perdoe a irreverência), na altura que lhe servia.... Nada melhor para umas batidinhas: toc toc! E o cachimbo ficou limpinho, ajeitado pra cachimbada seguinte. O Padre Olívio, compreendeu a situação, e sem dar alarme entrou novamente na boléia e passou a mão como espanar a cabeça tirando a cinza que ali ficou depositada. O caminhão saiu do atoleiro e novamente prosseguiu viagem.

            Agora Padre Olívio ao Otávio, abrindo o teor da conversa.

            -“Acho que o Sr. Liberal, lá em cima da carroceria, está pensando que hoje é quarta-feira de cinzas...”!

            -“Por que, Padre Olívio”?

            -“Distribuiu cinza a valer na minha cabeça”.

            E as boas risadas não mais pararam até chegar à capela. Na sala da casa canônica, Otávio viu a inocência do papai que ainda não tinha descoberto o sucedido, e começou bem sério a criticar esse modo estranho de servir o ministro de Deus, dando-lhe pancadas na cabeça com o cachimbo. Os três riram pra valer. Daquele dia em diante, era o papai olhar para a careca do Padre Olívio e logo explodia em francas risadas. Até parece mentira. Não diz o Provérbio que à noite, é fácil tomar gato por lebre? Ou careca de Padre por cepo de bater cachimbo?

 

Conto nº 68, página 93 do livro “Reminiscências de um Século (1889-1989)” do Sr. Máximo Zandonadi. Publicado em 1989.

 


A Primeira Moto em Venda Nova
 

A primeira moto a rodar nas estradas de chão, sem asfalto, aqui em Venda Nova, foi adquirida por Ângelo Borgo - dentista prático, residindo em Lavrinhas. Embora os caminhos fossem impraticáveis, Ângelo não media esforços para atender uma numerosa clientela. Além disso, sobrava-lhe tempo para giros com a moto no atendimento de sua profissão em lugares distantes.

Numa ocasião se apanhou de noite na estrada de Mata-Fria para Venda Nova e embora não fosse seu costume viajar de moto à noite, ele precisou arriscar. De Mata-Fria até Venda Nova a vinda foi normal. Chegando em Venda Nova, em frente a casa onde residia titio Zandonadi, já altas horas da noite, tinha que atravessar uma ponte de grossos pranchões em cima de uma vala que levava água do córrego para movimentar um moinho. Do lado de lá da ponte umas rezes estavam ruminando ao relento e algumas ocupando a área poeirenta da estrada. Lá vinha o Sr. Ângelo distraído e tranqüilão. Na hora de impulsionar a moto para saltar os pranchões da ponte, lá de casa saem os dois cachorros bravos e investem para abocanhar-lhe as pernas. Diante do perigo, ele foi com toda a vontade no acelerador da moto e num pulo ganhou a estrada do lado de lá da ponte indo de impacto acertar, no escuro, a cabeça de uma gorda novilha, que ficou esticada e morta no meio da estrada. O Sr. Ângelo não pôde parar para avisar os donos da trágica morte da novilha, a qual, se fosse dado ciência de como morreu, podia ser aproveitada. É que os cachorros, pega-não-pega, o acossavam, mas ele na moto facilmente escapou na disparada. Também podemos conceder-lhe uma atenuante: sabia ele que tinha matado uma vaca? Logo de manhã meus primos acharam o belo e precioso animal esticado e chegaram à conclusão que tinha morrido de peste bubônica. Muito tempo depois, numa roda de amigos e compadres, o Sr. Ângelo contava as peripécias por que passara em suas viagens na moto. No meio da turma, de ouvidos alertas o Caetano, meu primo, filho de titio Job. O Sr. Ângelo distraído contou também o sucedido na frente da casa de titio. Quando acabou de contar, lá de um canto, o Caetano com aquele jeito bonachão:

- “Pois é, Sr. Ângelo, por não me avisar, você me fez perder meio dia de serviço para enterrar a novilha, quando ela podia ter dado um bom guisado.”

            O Sr. Ângelo ficou todo confuso e chateado, disse o porquê precisou esconder o sucedido e tudo continuou na santa paz e harmonia entre as partes.

            Diz o provérbio: “Quem não deve não teme!”
 

Conto nº. 36, página 54 do livro “Reminiscências de um Século (1889-1989)” do Sr. Máximo Zandonadi. Publicado em 1989.


Pescaria a Cavalo

       Este conto é de meu amigo e companheiro de infância, Abel Tosi, que sempre conserva o humor sadio e comunicativo. Sempre alegre e expansivo, tem um círculo de amigos ,muito grande em Venda Nova. No tempo de solteiro, seu hobby predileto era possuir um animal de sela, arrriado a capricho, e montado, todo pimpão, ir a todos os bailes por longe que fosse, partindo muitas vezes madrugando, para voltar à noite, na casa que o convidara.

         Numa jornada dessas em pleno verão, sol quente, galga uma serra pelas bandas de São José de Fruteiras. Num planalto, uns 10 metros distante da estrada, uma lagoa de água refrescante. Parou, dirigiu o animal até a lagoa para que abaixasse o focinho para saciar-se à vontade. Abel nem precisou desmontar, só afrouxou as rédeas e deixou o animal livre, ficando ele no arreio imóvel, apreciando a natureza ao redor do lago. No exato momento em que o animal enfiou o focinho, de repente, deu um pinote violento. Brucutu! Lá está o Abel, desprevenido, estatelado no chão. Prestes a levantar, o baque de um corpo que cai lá na estrada, a dez metros de distância. Que será? Amarra o animal num toco e curioso, vai ver que estranho volume provocou aquele barulho. Ao chegar, encontra uma traíra de um quilo e meio, se debatendo na estrada à procura de água. O animal, ao colocar o focinho na água foi abocanhado pela traíra. Num violento safanão atirou para longe aquela atrevida. O Abel, contentão, sem anzol nem isca, naquele dia se divertiu com a bela pescada! Si non é vero... mas é pura verdade, “eu juro”, conta ele.

Conto nº 79, página 106 do livro “Reminiscências de um Século (1889-1989)” do Sr. Máximo Zandonadi. Publicado em 1989.